A louca da memória A nostalgia tomou conta de mim esta manhã. Eu estava organizando meus guardados por conta de uma mudança de apartamento e me veio a memória da minha mais tenra juventude. Eu e minha namorada de colégio abraçodos num retrato desbotado. Quando chega a meia idade os homens costumam esquecer a ternura que se experimenta no frescor do primeiro amor. Esta menina, hoje uma senhora que dizem que perdeu o juízo, me ensinou a amar pela primeira vez. Na verdade era uma paixão de adolescência. As pessoas maldizem os sentimentos da adolescência; mas era tudo tão digno, tão cheio de encanto e medo. Foi uma aventura de sentir a dois. Ela se chama Anita. Anita tinha uma facilidade de escrever versos, histórias. Eu escrevo timidamente escondido no meu escritório. Já amei outras vezes e um destes amores me deu uma família e uma monotonia que deixa longe aquele frescor da primeira paixão. Vivemos, eu e minha mulher, uma vida em comum cheia de rotinas e sem grandes afetos. O casamento me deu uma relação de amor, mas de amor fraterno. Se ela lê qualquer referência à Anita nestas páginas teremos uma briga conjugal. Por isto mantenho estas palavras escondidas na memória e escrevo atrás do computador dizendo que tenho um relatório a fazer para a firma. Os malditos relatórios... Se minha mulher, Clarice, me pega nesta recaída de retirar estas memórias dos meus guardados terei muita dor de cabeça. Guardo estes resíduos em papéis e retratos em um lugar que só eu sei achar. Achar e guardar o que se perdeu com o decorrer da vida... Muitos acham que Clarice tem razão pelo ciúme quando, embriagado, ousava mencionar a história de amor que guardo em retratos desbotados, poemas escritos em guardanapos e o meu olhar que brilha quando lembra aqueles tempos de amor fresco. Acho que perdi a capacidade de amar. È como sempre me diziam ou como eu aprendi. Um homem precisa constituir uma família. Os laços se estabelecem no papel do cartório, no casamento religioso e na hipocrisia. Anita diria assim. Sempre tenho lá os meus casinhos. Minha mulher me jura que é fiel. Eu acredito. Clarice é tão ligada aos valores da tradicional família mineira. E isto é o avesso de Anita que sempre me ensinou a me aventurar na nossa crença na revolução de costumes. Odiávamos os caretas. Eu optei por ser um homem respeitado. Naquele tempo isto era ser careta. Anita, segundo me dizem, continuou se rebelando contra os padrões sociais, amou a poesia e a música... E dizem que está louca. Outro dia, isto já tem uns seis meses, a vi cruzando a rua. O sinal estava fechado. Ela olhou para mim e como eu acenei e disse que tinha pressa, ela saiu cantarolando uma música antiga, uma melodia com uma letra sobre o sinal fechado. Em nossa época tudo tinha trilha sonora. Me senti tão longe daquela música que não me lembrava direito e fui correndo para uma reunião que foi um sacrifício. Em meio a uma discussão sobre a cotação do dólar me lembrei de Paulinho da Viola. Bom músico. Será um louco também? Nunca mais ouvi este cara. Minha escolha por ter segurança, minha família, minha casa própria foi uma atitude bem pensada. Conheci Clarice num curso de psicologia. Hoje, com o diploma de psicólogo, sou corretor de imóveis e vendo o sonho da casa própria. São tantos os casais que se sentem radiantes no ato da compra (ainda que paguem juros altos pelo empréstimo que dura vinte anos); e eu tive o mesmo sonho e agora fiz outro empréstimo para uma cobertura. Meu carro impõe respeito. Minha posição de chefe de família tem responsabilidades e meu lugar é este: o sólido lugar de chefe de família. Mas é que olhando estes retratos tudo isto parece tão insosso. Sinto falta da vertigem que era amar. Lembro-me, surpreso do que fui, daquelas vezes em que Anita me levou convicto a sair em passeata contra a política da propriedade. Sei que Anita está louca. Dizem que já foi, por duas vezes, internada. Deus me livre ter que suportar isto perto de mim. Sou um homem centrado. O curso de psicologia me deu certas certezas que vão contra o que sinto e vejo nos velhos retratos, nos versos apaixonados e lindos e loucos de paixão que eram dedicados, vejam vocês, a mim. Terei sido falso nos arroubos da juventude? Tudo que edifiquei entre propriedades e contratos é imprescindível Este sonho da casa própria que faz de mim um homem de equilíbrio me afasta de Anita. A saudade é dolorosa como o medo de perder minhas posses, minha mulher, minha família e o meu juízo.
Escrito por Bererê às 15h34
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Nada a Declarar Escrever é uma necessidade na medida em que o anonimato vai me transformando em ninguém. Busco a escrita na esperança de que o leitor consiga sobrepor esse abismo que nos separa. Não sei formatar o que escrevo na estrutura do gênero literário e o meu pensamento não consegue encontrar um gênero coerente com a poesia ou a prosa. Talvez este seja um ensaio. Ensaio no sentido teatral da palavra. O que estiver escrito aqui um dia se transformará em algo. Neste momento escrevo porque minha imaginação vagueia como um fantasma órfão de pai. Minha mente é uma neblina, uma nuvem que não se concretiza e o leitor não poderá tocar o que eu penso. Não penso nada de mais. Penso que escrever pressupõe algo a se acrescentar ao leitor que consome informações e eu sou uma pessoa com a cabeça oca, eneblinada por pensamentos imperfeitos sobre o que é a mulher que seduz, a morte que seduz e esse abismo que existe entre o que estou a pensar e o leitor que não se arrisca a pensar sobre o quão é importante pensar em nada. Veja esta neblina. Veja a nuvem. Você vê a forma, a cor que se adensa, mas se tocar a neblina, a nuvem, não poderá tatear o vapor como coisa concreta. A nuvem, a neblina e eu somos esse nada. O ensaio é de Ninguém. Pouco me importa se isto é loucura. Não peço perdão aos neuróticos se isto é esquizofrenia ou resultado de uma viagem de Êxtase. O leitor não existe. Existe o contra-leitor que segura minhas mãos para que eu não escreva nada. Para que esta insignificância não cause o mal estar que a civilização transforma em material bélico. Ensaio para que esta neblina repouse sobre o papel e minha cabeça fique mais leve. A neblina tem peso e densidade. Se é substancial ou utilitária...? Não é. Sinto muito. Não sou escrava de ninguém. Escrevo o que quero e quando quero. E digo mais: não preciso de disciplina para dizer que escrevo. Escrevo agora o que o leitor quer ouvir: estou escrevendo o que me dá na telha. O capitalismo tem me feito muito mal. O comunismo ruiu com os ataques contra o direito de expressão. Não há ideologia que alguém possa sustentar neste mundo. Eu mesma não me sustento com a minha escrita. O que são os direitos autorais de alguém que é Ninguém. Escrevo para sobreviver ao ócio que é pensar constantemente em algo vago que é a morte, a mulher, o míssil, a morte, o psiquiatra ou a prostituta. Sei lá para que escrevi isto aqui. Isto pode, quem sabe, bagunçar o coreto harmônico das narrativas coesas e determinadas. Isto é um nada. O nada me absorve e eu adoeço e morro todos os dias. A mim me bastaria um olhar ou quase nada. O que será isto, meu deus!
Escrito por Bererê às 14h36
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Escrivinhações de Berenice Teixeira
O primeiro dia útil Ela vinha de uma experiência de vertigem, dor, estranhamento... Via-se naquele sonho vivendo a lembrança de um sonho anterior que se repetia. Ela era outra e estava nua. Alguém apontava para debaixo de seu antebraço onde havia um nódulo. Aquilo levaria à morte e ela via depois disto seu corpo multifacetado em várias partes e membros que se desencontravam na imagem especular daquela outra. O despertador fez soar algo inusitado. Seus olhos estavam molhados e ela os abria e fechava sentindo que havia chorado em algum momento anterior ao soar da música de um autor que tinha composto aquele sentimento de vertigem diante da possibilidade de morrer e da dor de sentir-se com a ponta dos pés mantendo-se ligada ao chão para não cair no nada, no abismo. Aquele despertador havia acionado o rádio e ela foi se descolando do sonho e acordou com a música abissal. Ela abriu os olhos com o sentimento onírico misto às imagens do seu quarto. Arpejos e pizzicatos dissonantes prolongavam seu sonho onde ela era uma estranha de si. Levantou o dorso abraçando os joelhos e ouviu a música vibrar pelo apartamento; sua casa onde vivia só desde que tinha perdido a esperança no casamento. Foram três tentativas de se casar. Ela concluiu que não podia compartilhar sua casa uma vez que sua solidão necessária tornava o ambiente angustiante para o outro. Ela precisava estar consigo em certos instantes, como aquele em que ouvia a música soar e não acordá-la, pois o sonho daquela noite tinha o brilho dos acordes fortes e fracos que não tinham um nada a ver com nada. Nada a ver com nada era um modo de ver a vida. Ver o nada pelas frestas que significavam algo era uma curiosidade literária e nada científica. Nada lhe interessava muito. Esse nada sem sentido retumbava na impossibilidade de adivinhar para onde iria a linha melódica que ela podia apenas desconfiar. Seu ouvido atento vivia o êxtase de encontrar naquele som o eco de sua identidade desintegrada em múltiplas facetas do sonho. Foi com esforço que se soltou dos joelhos, pegou no maço que estava no criado mudo um cigarro e voltou àquela posição, apesar de manter o braço direito um pouco solto fazendo movimentos de batuta de regente com a fumaça que tomava o quarto e ia mostrar-se na fresta de luz que entrava entre a cortina. A fumaça de azul acinzentado desenhava o lugar do sol irradiando naquele lugar que ia da janela ao pé de sua cama. A música lhe arrancava golfos de gozo e ela pensava que não poderia perder a oportunidade de ir até o último timbre. – Que bom seria se a música não acabasse! Pensou num murmúrio interno. Como termina o Bolero de Ravel, a música deu lugar a uma locução irritante de um homem. Não se importou em saber o que aquela voz grave pasteurizada dizia sobre o nome do autor da obra. A audição era única. Sabia que nunca mais ouviria aqueles acordes. O fim do último arpejo de violino deixou-a em um silêncio diante do qual se ouvia os outros sons do rádio que insistia em continuar e a vassoura que a empregada esfregava no corredor atrás da porta. Apagou o cigarro na guimba depois do último trago amargo. Deitou-se morta de cansaço. Acordara finalmente. Tratou de desligar o rádio no controle remoto e ficou com o ruído da vassoura e o barulho de crianças que brincavam na rua. Eram nove horas da manhã. Aquela música tinha uma reverberação em sua memória e o travesseiro que reservava para casos amorosos estava vazio como seu coração. Teve medo da banalidade do dia que iria começar naquela segunda-feira. O café, outro cigarro, a fome e a voz da empregada que falava sobre algo que a vizinhança comentava sobre ela. Todos a consideravam esquisita e outros tinham medo dela como quem teme a própria loucura. Ouviu da janela aberta da sala com espanto um grito, depois um choro alto. Uma criança gritava porque caíra e agora seu cachorro lambia seu rosto e bebia as lágrimas. Ela sorriu. Tomou o café, um leite com chocolate. Pegou seu caderno e começou a esboçar o que sentia com carvão. O preto e o branco lhe salvavam do horror que tinha naquele instante de voltar à banalidade da vida. Desenhou os acordes, a dissonância e a loucura. Dependurou o papel colado na parede. Olhou a obra fixada com fita crepe e fez outro desenho com aquarela amarela e preta. Sua insanidade mental era maravilhosa. Seu marchand ficaria contente porque ele saberia do valor de sua arte em reais. Pelo resto do dia desenhou a música desde o sonho até o último timbre. Ao final do dia estava morta. Mas uma morta-viva.
Escrito por Bererê às 14h13
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